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quarta-feira, 19 de maio de 2010

O bóia-fria


O bóia-fria
Leda Coletti

Ainda é madrugada, com cerração fechada. Na velha jardineira os bóias-frias sentados nas poltronas estragadas, aproveitam o trajeto até o sítio de cana arrendado pela usina de açúcar, para continuarem o sono interrompido.
José, itinerante, chegou do estado de Minas Gerais, para a nova safra de cana. Fica alojado numa das casas grandes de fazenda de uma usina de Piracicaba.
Sente medo e ao mesmo tempo alívio, quando recebe o eito de cana pelo fiscal. Imediatamente derruba-as uma a uma com o facão que recebeu bem afiado, as quais serão içadas nos treminhões por aquele enorme garfo da carregadeira.
Já é hora do almoço. Pega sua marmita e come a comida que já está fria. Estava terminando sua refeição, quando viu aquela bóia- fria chegando. Vestia em cima da calça comprida de brim desbotada, uma camisa xadrez e saia de algodão. Ouviu quando seu vizinho chamou-a pelo nome. Atendeu pelo de Antonia. José teve um sobressalto, pois era o mesmo de sua mulher. Não pôde deixar de enxugar uma lágrima. A saudade está aumentando cada vez mais, principalmente dos filhos menores. Não sabia como iria se comunicar com eles, pois moravam em local retirado da cidade. Também por carta é impossível, pois não sabe ler e muito menos escrever. Foi interrompido nos seus pensamentos pela chegada de Antonia:
- Aceita água fresca ? Fui buscar na mina que nasce no capão do mato próximo daqui. Aceitou, pois a que trouxera já estava quente. Conversaram um pouco, o suficiente para deixar José reconfortado. Soube que ela chegara do estado do Paraná e morava com os tios num Conjunto Habitacional, construído em forma de mutirão pelos interessados, nos finais de semana. Também cursava o Curso Supletivo e contava com orgulho que já redigia suas cartas, aos pais distantes. Ao saber da dificuldade de José para entrar em contacto com a família, se prontificou em escrevê-las, “isso até você aprender “, dissera ela, tentando incentivá-lo para também estudar.
Naquela noite José sonhou com sua Antonia e as crianças. Viu-os bonitos, com roupas muito limpas, dentro de uma casa de tijolos, com um jardim florido na frente e uma horta repleta de verduras no quintal, todos estudando, inclusive ele.
Seu sonho foi interrompido pela sirene próxima do alojamento, chamando a todos para mais um dia de trabalho.

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