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sábado, 22 de maio de 2010

Cortejo dos Pirilampos

CORTEJO DOS PIRILAMPOS
Dulce Ana da Silva Fernandez

Cochilando sobre velhos tempos vividos na casa da minha avó, a noite manda vagalumes circularem-me, com doce luminosidade, pela janela aberta:
Préadolescente, nos meus 10 anos de idade, cheios de aventuras, sonhos...
Mamãe, para alegrar vovó, mandava-me passar os finais de semana lá na chácara. E eu gostava muito: casa antiga, acolhedora, espaçosa; quintal imenso com pomar e horta jardim; anjos sobrevoavam as camas, espantavam os monstros com suas mágicas asas brancas; lamparinas oratórias iluminavam santos protetores...
Dias estafantes, cheios de atividades! À tarde, ali na sala da frente do casarão da chácara, sentada ao lado da maquininha manual de costura, vovó acertava, com alfinetes retalhos coloridos. A cada colcha, distribuía os pedaços quadriculados e recortados de panos numa bela combinação de cores. Introspecção. Recolhimento. Silêncio. Histórias de verdades, vivências nos seus retalhos!
A minha avó sempre contava a história de um casal de vagalumes que voava pela sala. Espreitava retalhos coloridos da colcha. Ela sorrindo misteriosa, dizia que os quadrados recortados e irisados eram simples peças aladas que atraíam seres...
Vinham visitá-la à noite quando entravam pela janela semiaberta. Com o canto dos olhos, via quando os vagalumes chegavam, fingia continuar a arrumar os moldes, ou costurar, enquanto, embevecida, seguia o belo voo que iluminava o silêncio.
Ouvi-a contar isso dezena de vezes, antes mesmo da época em que costumava passar os finais de semana lá na chácara. E, logo os conheci.
Vovó, silenciosa lá na grande sala, mas os pensamentos, apressados. Recordava-se do vovô. Felizes por muitos anos, até que ele decidiu partir para a Itália, tomar conta de um irmão doente (promessa que fizera à mãe), e nunca mais voltou.
A partir dessa data, ela se trancou dentro de casa. Solidão? Sim. Enquanto costurava, recordava da fala mansa e agradável do esposo em seus momentos antes da partida. Só renasceu, depois de passado quase um ano em que ele, ainda na Europa, falecera. Como uma fênix, novamente vivia, mas era pelos filhos e netos.
Numa bela noite, eu estava lá na chácara, silencioso e entretido num quebra cabeça, quando o casal de pirilampos apareceu. Até que enfim pude vê-los.
2/2
Depois da saída deles, mandou que eu a seguisse até a cozinha. “Ah! O que há na cozinha? Eu quero ficar aqui na sala”. Comentei tristonho.
Atendera ao meu pedido. Deixou-me sentado na poltrona e só fui chamado quando terminara de fritar os bolinhos de chuva.
Surpresa! Com os olhos meio fechados, ela viu na pequena abertura um dos vagalumes no canto da caixa de retroses. “Ainda está ai dentro?” Com voz baixa e magoada, respondeu: “Está feliz? Pois ele se encontra aí”. Continuei o comentário:
- Sabe vovó. Deixei uma fresta para a entrada de ar. Coloquei farelinho de bolacha para alimentá-lo. Agora, estou à espera do seu companheiro para caçá-lo também. Vou tentar amarrá-los. Já peguei o carretel de linha, pois os vagalumes são espertos, entram e saem da sala com a luz acesa, quando querem. Você me ajuda?
Vovó, de pronto respondeu: “Você não devia se alegrar em destruir um deles, o outro agora não vai mais aparecer nem para me fazer companhia”...Tarde demais. Desde que o colocara ali, ele, parado! não apagava a lanterninha. Com certeza a pilha ia se acabar... A intenção de atrair o outro tornou-se ideia fixa para mim.
Trocarmos um sorriso cúmplice. Apertamos as mãos e fomos comer os bolinhos.
Comemos num silêncio enervante. Os bolinhos não tinham mais sabor? Será?
Dois dias após, já havia me esquecido da caixinha com o pirilampo sobre a mesa de canto, brincava com meu jogo de botões. Admirado, após erguer a cabeça, vi, semeando luz viva ao redor da lâmpada da sala, alguns vagalumes. Vovó pediu silêncio. Olhei na caixinha, o vagalume não estava lá No chão, algumas formigas de comprida carreira, carregava-o com dificuldade até um buraco na madeira da janela.
- Com certeza, vieram acompanhar e iluminar o funeral do amigo, que morrera antecipado, na solidão de uma caixa de retroses. Vovó comentara baixinho. E, ao ver lágrimas rolando por minhas faces com graça e ternura, veio enxugá-las e me abraçar na busca do perdão ...
Agora, o conto de fadas virou saudades. Ao caminhar, em direção ao futuro, uma parte do meu coração permanece naquele “tempo”.
Envolventes lembranças que jamais se apagarão.

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